Esse texto escrevi em 2005 para a festa de aniversário de 40 anos de casamento de meus pais. Lendo agora parece um pouco “piégas” e alguns parágrafos contém “…inhos” demais mas na época meus pais choraram enquanto eu lia, então deve valer alguma coisa. Recentemente minha filha leu e gostou muito. Ela mesmo está escrevendo alguns contos e eu para dar o exemplo decidi publicá-lo. Para que serve um conto se ninguém o lê?

Era uma vez uma garotinha bonita e fofinha que vivia em um sitio lindo lá no interiorzão de São Paulo.  Era uma menina trabalhadora que ajudava sua mãezinha a cuidar dos afazeres da casa enquanto seu pai andava pelo sitio em seu alazão cuidando da roça e das criações.

No domingo ia para a missa na cidade com toda a família. Naquela época ainda não prestava tanta atenção no que o padre dizia como agora e assim seus olhos sempre encontravam os olhos de um garoto magrinho com pinta de galã e uma linda troca de sorrisos acontecia.

Quantas vezes aquele garoto maroto ia até o sitio da menina roubar uma goiaba, uma manga ou então as deliciosas jabuticabas que ela tanto gostava. Ele não diz, mas as frutas não eram o real motivo para dar uma passadinha ali.  Era, talvez, um encontro inesperado, uma nova troca de olhares, ou quem sabe, até mesmo um “dedinho de prosa”. Como era bom aquele tempo, onde a inocência ainda reinava e as coisas eram mais belas.

Eles foram crescendo e a amizade também logo se transformando em um namoro “das antigas”. Permissão dos pais para sentarem juntos no mesmo sofá. Permissão dos pais para irem juntos à missa com a onipresença do irmão da moça.

Era um namoro inocente, mas o rapaz não era de todo inocente. Ele fazia parte da famosa turma da queixada, aquela que quando chegava nas festas e que elas realmente começavam. Tinha seus casinhos aqui e ali. Nada muito sério. Coisas de adolescente como diriam as pessoas da época. Quando estava com ela, entretanto, o coração batia mais forte. O beijo roubado quando o irmão se distraia era tão excitante que até valia o risco de apanhar do brutamontes.

A vida corria solta, mas as dificuldades eram muitas. O trabalho na roça não apresentava futuro. Se quisessem construir uma vida juntos, ele teria que encontrar novos caminhos. Um desses caminhos apareceu quando a saudosa tia Angelina e tio Virgilio o convenceram a vir para São Paulo morar com eles. Ele aqui, ela lá. Como doía esta saudade! Mas valeria a pena.

O trabalho era duro aqui também. Sem estudo nem profissão, as portas eram estreitas. Mas a força de vontade era grande, e com muito sacrifício eles conseguiram se casar e vieram morar na cidade grande dividindo o quintal com parentes.

A pressa era grande e logo tiveram o primeiro filho. Que dificuldade era carregar aquele menino gordinho nos braços subindo a rua de terra poeirenta para visitar as tias.  A mãe ainda era uma menina. O pai então, era O entendido. Dava caldo de feijão nos primeiros meses para o moleque, levava-o para o centro da cidade nos seguros ônibus da época e outras coisas que um pai saindo da adolescência faz.

A vida seguia no ritmo lento, ele estudava e trabalhava, ela cuidava da casa e do filho. Lá fora a Revolução de 64 corria solta, mas eles não se importavam. Não entendiam o que acontecia. Só viam a economia melhorando e novas oportunidades aparecendo. Logo compraram um terreninho com dinheiro emprestado e começaram a construção da casa de quarto e cozinha. O mutirão para pôr a laje apareceu até no jornal. Os bois e cavalos passeavam na porta de vez em quando recordando da vida no sítio. Quantas vezes tiveram que buscar água na chácara que havia perto.

Cinco anos depois do primeiro filho veio a filhinha. Uma menina linda que chegou querendo abraçar o mundo com seus bracinhos como ainda quer até hoje, apesar de já não serem mais bracinhos. Aquariana de gênio forte insistia em brigar com o irmão mais velho que não queria leva-la nos bailinhos.

Os pais já eram mais maduros e a vida já não era tão dura. Tinham até televisão preto e branco. Logo compraram o primeiro carro, um fusquinha meia boca, que quando iam passear no interior, tinha que ir atrás de um caminhão para iluminar o caminho.

Perseguiam firmemente o objetivo de formarem seus filhos com caráter e princípios cristãos. Mesmo que os pequenos prazeres ficassem para depois. Mesmo que a vida fosse monótona e cansativa. Mas eles tinham um ao outro para se apoiarem. Tinham um amor que vencia as dificuldades e os levavam pelo caminho do bem.

Quarenta anos se passaram desde aquele sim trocado na frente de Deus e seus pais. Quarenta anos de luta, tristezas, mas muito mais alegrias. Alcançaram o objetivo como poucos conseguem. Seus filhos, formados, bem casados, lhes deram muitas alegrias. Algumas já têm nome e outras, ainda por vir, também terão.

Ela tem uma bondade extrema. Tanta que precisa distribui-la pelos asilos e hospitais deste mundo. Dedica-se com paixão a Cristo e a comunidade.

Ele ainda batalha para manter a família. Um homem íntegro, carinhoso com esposa. Ainda lhe dá flores no aniversário de casamento.

E assim como viveram até então, ainda vão viver felizes para sempre.