Mandela e a África do Sul

Tive a sorte de conhecer a África do Sul exatamente uma semana antes da morte do Mandela. Depois dessa viagem, passei a compreender os motivos da admiração e respeito que o mundo tem por ele. Nesse post, descrevo um pouco do que vi lá.

Tive a sorte de conhecer a África do Sul exatamente uma semana antes da morte do Mandela. Ele já estava em casa em estado gravissímo mas as pessoas ainda falavam sobre ele com esperança. Os vinte anos de democracia provocada pela sua atuação e liderança criou uma nova geração de cidadãos que só conhecem o sofrimento causado pelo Aparthaid pelas histórias que ouvem de seus pais. Imagino a comoção da população pela morte de seu lider máximo.

Mas o futuro preocupa agora que ele não está mais presente. Seu partido político está cheio de conflitos internos e casos de corrupção, a sociedade ainda apresenta um enorme diferença de classes que tem provocado manifestações e greves, muitas vezes violentas.

Espero que eles possam manter o legado de paz e progresso pelo qual Mandela tanto lutou.

Abaixo descrevo um pouco do que vi na viagem.

A Africa do Sul e especialmente Cape Town, excederam em muito minhas expectativas. Fui achando que fosse um país semelhante ao Brasil com todos os problemas do subdesenvolvimento mas encontrei um país vibrante, organizado e lindo.

Começando pela porta de entrada, o aeroporto, já se nota a diferença. Não deve nada a nenhum aeroporto americano ou europeu. Grande e organizado, faz nos ter ainda mais vergonha dos nossos, principalmente do caos de Guarulhos. Claro que não posso falar de todos os aeroportos da Africa do Sul, mas os dois que conheci são do mesmo alto nível, o de Johannesburgo e da Cidade do Cabo são semelhantes em tamanho, organização, qualidade das lojas, e estacionamentos.

Deixam um pouco a desejar no quesito transporte para a cidade. O transporte público não é dos melhores e o sistema de Taxi é meio estranho. Os motoristas não ficam em seus carros na fila, eles entram no aeroporto e se revesam no box da companhia de taxi aguardando os passageiros que são levados aos carros pelos próprios motoristas.

A mão inglesa de direção também causa estranheza. Várias vezes tentei entrar pela porta errada do passageiro. E nos cruzamentos dá uma certa aflição quando eles entram pelo lado errado da via (pelos nossos padrões).

Até as favelas que existem no caminho entre o aeroporto (20 km) e Cape Town são mais organizadas. A rede elétrica é distribuida de maneira mais segura, os barracos são menores feitos de papelão, lata e madeira e somente um andar. Nas bordas o governo colocou dezenas de banheiros químicos e nota-se que casas e apartamentos de baixo custo estão sendo construídos para substituir as townships, como essas favelas são chamadas.

O povo é simpático e acolhedor e fui muito bem tratado por todos. O Inglês é a língua usada em quase tudo, nas placas e avisos, televisão, lojas e restaurantes. Eles são bilingues, e mudam entre inglês e Afrikaner (ou outra das 11 línguas oficiais) frequentemente durante a conversa entre eles.

O clima é semelhante ao nosso, inclusive com a variação climática num mesmo dia. Pode chover e fazer frio pela manhã e sol e calor a tarde. O vento forte é bem frequente também podendo causar transtornos como o fechamento de atrações turísticas ao ar livre.

A principal atração de Cape Town, a Table Mountain, é fantástica. Atrai milhares de turista todos os dias com longas filas para pegar cable car que te leva do meio da montanha até o topo. Lá em cima há restaurante, trilhas e pontos de observação em todos os lados da montanha que permite ver paisagens magnificas do lado do Atlântico e do Índico.

A 40 km de Cape Town há uma região vinícula antiga que agora produz vinhos para exportação principalmente para a China. Quase todas possuem restaurantes, lojas de degustação e é um excelente lugar para passear com a família nos fins de semana.
As praias são lindas e comparáveis com as nossas do nordeste, com areias brancas e boa infra-estrutura para turismo são bem concorridas no fim de semana mas com os mesmos problemas de tráfego que temos nas nossas. Em alguma delas, o mar é muito frio entretanto. Os restaurantes especializados em frutos do mar estão em toda parte. Tanto nas praias quanto na cidade.

Mandela é o grande herói do povo. As pessoas sabem exatamente onde estavam e o que estavam fazendo quando ele foi libertado e quando ele deu o primeiro discurso como presidente. Os que estavam presentes nesses eventos contam com orgulho e lágrimas nos olhos. As mudanças provocadas nesses vinte anos de democracia são enaltecidas por todos com quem conversei. A classe média tem crescido muito, principalmente com a ascensão social dos negros (92% da população).

Os problemas ainda existem entretanto. A diferença de renda ainda é absurda e a demora das mudanças sociais deixam muitos insatisfeitos. O partido do Mandela está sendo muito criticado por isso e pelos constantes casos de corrupção. A nova geração que nasceu durante a democracia cada vez mais tenta troca-los pelos novos políticos. Na sexta, quando saí de lá, estava previsto um protesto em Cape Town que provavelmente acabaria em quebra-quebra como aqui.

Mandela foi mantido vivo com a ajuda de aparelhos e 21 médicos até sua morte ontem.

Resumindo, conhecer a Africa do Sul foi muito bom e, pela quantidade de turistas que encontrei, muitos outros acham isso também. Pena que fiquei tão pouco tempo. Dizem que há outros lugares muito mais bonitos que os que vi em outras regiões. Devem valer as 8 horas de ida e as 12 de volta.